'BRINQUEDOS DE MENINA' E SEU PAPEL NA REPRODUÇÃO DE COMPORTAMENTOS

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O dia das crianças está se aproximando e com ele questionamentos em relação aos presentes começam a ressurgir. Embora nossa sociedade esteja em constante evolução, algumas questões ainda são sensíveis e pouco debatidas. Por essa razão, importa tratarmos sobre os chamados “brinquedos de menina” e seu papel na reprodução de comportamentos.

Para que a discussão não se resuma em argumentos inúmeras vezes compartilhados nas redes sociais, é preciso entender alguns conceitos como divisão sexual do trabalho e carga mental.

A divisão sexual do trabalho tem como base a naturalização e a valorização das diferenças entre homens e mulheres, observadas a partir do gênero. Para os defensores dessa divisão, a natureza masculina e a feminina são complementares e essenciais para um equilíbrio social. Assim, há uma separação de papéis justificada por um fator biológico.

A partir dessa concepção, tanto as profissões, como os postos de trabalho e o acesso a esse mercado passam a ser classificados em trabalhos de homens e trabalhos de mulheres. Sob o enfoque das teorias da divisão sexual do trabalho, constrói-se a imagem da mulher trabalhadora, desde a sua infância, quando lhe são designados pequenos afazeres domésticos, até o seu ingresso no mercado de trabalho remunerado (ou não).

A divisão sexual do trabalho tem reflexos não apenas na separação de tarefas “visíveis”, mas também nas de caráter mental, entendidas como trabalhos “invisíveis”. Isso porque, enquanto as mulheres são vistas como gestoras do lar, os maridos, companheiros ou outros homens que residem no mesmo espaço, servem como meros executores de tarefas residuais.

A educação das crianças, principalmente nos primeiros anos de vida, é decisiva para a manutenção desse sistema patriarcal; uma vez que, mesmo a mais ingênua das brincadeiras, como por exemplo, o cuidado com as bonecas ensina as meninas a terem responsabilidade com os filhos que irão gerar futuramente.

É a partir daí que a nossa discussão começa a tomar forma. Meninas costumam ganhar brinquedos que reforçam o estereótipo feminino e a construção social de que as tarefas domésticas são “trabalho de mulher”, como por exemplo, fogãozinhos, panelinhas, bonecas e afins. Por outro lado, a maioria das brincadeiras masculinas reflete um ideal de superioridade e provento para o lar, além das infinitas possibilidades relacionadas única e exclusivamente ao lazer e o desenvolvimento da imaginação.

É importante reforçar que a maioria das mulheres sentem o peso da divisão sexual do trabalho em algum grau. A carga mental pode ser explicada, facilmente, a partir dessa premissa. Mesmo para as mulheres que recebem ajuda externa na realização das tarefas que lhe são incumbidas pelo sexo, a carga mental não é ainda possível de ser compartilhada nem com a outra mulher que realiza as tarefas dentro do ambiente doméstico, nem com o marido ou companheiro.

Quando o homem espera que sua companheira o instrua sobre as atividades que deve realizar, significa que ele a vê como a responsável pelo trabalho doméstico e toma para si o papel de executor de algumas destas tarefas, aguardando sempre o comando feminino.

Embora as taxas de realização de tarefas de cuidado e afazeres em geral por homens tenha aumentado ao longo dos anos, as pesquisas evidenciam a estrutura patriarcal e os mecanismos de reprodução social como principais alicerces da sociedade atual, possibilitando, principalmente, a naturalização das múltiplas jornadas de trabalho feminino, bem como a negação da existência de uma carga mental.

Por essas razões, devemos escolher com cuidado os brinquedos e as brincadeiras que oferecemos para as nossas crianças, buscando construir uma sociedade melhor para as próximas gerações.

 

Para sugestões: [email protected]
Instagram: @adv.mariaeugeniapsena

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