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Máquinas Eternas #29: Ferrari 126 C2 era veloz mas ficou marcada pela tragédia

Equipe italiana era favorita absoluta ao título mundial de 1982, mas Gilles Villeneuve morreu num acidente, e Didier Pironi teve a carreira na Fórmula 1 encerrada em outra batida


A seção Máquinas Eternas está de volta ao F1 Memória com um carro que poderia ter vencido muito mais do que realmente venceu. Projetada por Harvey Postlethwaite, a Ferrari 126 C2 foi o conjunto mais completo da temporada de 1982, e a equipe despontou como favorita ao título de pilotos. Mas o acidente fatal de Gilles Villeneuve e o seríissimo desastre de Didier Pironi, que liderava o Mundial, colocaram tudo a perder. Restou à Ferrari o título de construtores.

Gilles Villeneuve acelera Ferrari 126 C2 em Imola, em 1982 — Foto: Getty Images

Gilles Villeneuve acelera Ferrari 126 C2 em Imola, em 1982 — Foto: Getty Images

Em 1981, a Ferrari teve um potente mas desequilibrado carro, o 126 CK, o primeiro da equipe com motor turbo. Chamado por Villeneuve de "inútil Cadillac vermelho veloz", o carro era instável mas, ironicamente, o canadense venceu em duas das pistas mais travadas do ano, em Monte Carlo e Jarama. Mas a Ferrari sabia que precisava melhorar os chassis se quisesse voltar a brigar pelo título. Para isso, contratou Postlethwaite, oriundo da Fittipaldi. Curiosamente, a inspiração do inglês para o modelo 126 C2 foi o F8 da equipe brasileira, o que fez a imprensa italiana apelidar o carro de Fittipaldi vermelho.

De qualquer forma, o 126 C2 se mostrou rápido e equilibrado. Na África do Sul, Villeneuve e Pironi chegaram a andar em terceiro lugar, mas problemas de motor e injeção tiraram os dois da prova. No Brasil, Villeneuve liderou até errar, pressionado por Nelson Piquet, e Pironi foi oitavo na pista, mas subiu para sexto com as desclassificações do brasileiro e de Keke Rosberg, os dois primeiros, no famoso caso das caixas d'água, que eram usadas sob o pretexto de refrigerar os freios, mas tinham o líquido descartado.

Com aerofólio traseiro duplo, Villeneuve foi desclassificado do GP dos EUA-Oeste de 1982 — Foto: Getty Images

Com aerofólio traseiro duplo, Villeneuve foi desclassificado do GP dos EUA-Oeste de 1982 — Foto: Getty Images

Enquanto não era julgado o recurso para a devolução dos pontos a Piquet e Rosberg, uma guerra se dava nos bastidores. Ferrari, Renault e Alfa Romeo eram aliadas políticas da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), enquanto equipes inglesas como McLaren, Williams, Lotus e Brabham estavam "fechadas" com a Associação de Construtores (Foca). Esses times, que não tinham motores turbo, queriam a proibição dos mesmos, enquanto Renault e Ferrari, que tinham investido muito, lutavam para mantê-los. Nesse contexto, havia uma batalha entre o presidente da FIA, Jean-Marie Balestre, e o líder da Foca, Bernie Ecclestone, pelo poder na F1.

A Ferrari, então, resolveu colocar pressão e testar os critérios dos comissários com uma clara burla ao regulamento: no GP dos Estados Unidos-Oeste, em Long Beach, os carros foram equipados com uma configuração incomum de duas asas traseiras (cada uma, separadamente, com a medida regulamentar) mas colocadas lado a lado e presas num único suporte central, tornando-se efetivamente uma asa com quase o dobro da largura. Villeneuve chegou em terceiro lugar e foi desclassificado, o que era um argumento para a Ferrari cobrar isonomia da FIA. Se foi por esse motivo, não se sabe, mas a FIA manteve as desclassificações de Piquet e Rosberg. Ponto para a Ferrari.

Villeneuve e Pironi romperam relações após controvérsia em Imola, em 1982 — Foto: Getty Images

Villeneuve e Pironi romperam relações após controvérsia em Imola, em 1982 — Foto: Getty Images

As equipes inglesas decidiram protestar e boicotaram a corrida seguinte, em Imola, uma das casas da Ferrari. Isso criou o cenário perfeito para uma vitória da equipe italiana, mas também para a explosão da rivalidade entre Villeneuve e Pironi. Com a quebra dos dois carros da Renault, de René Arnoux e Alain Prost, a disputa pela vitória ficou um mano a mano entre os ferraristas. Com o canadense na ponta, a Ferrari pediu que as posições fossem mantidas, mas o francês passou na marra e venceu.

Indignado, Villeneuve começou a negociar com a Williams para 1983. Na corrida seguinte, tentando fazer a pole position de qualquer jeito, o canadense sofreu um acidente fatal ao decolar na traseira da March de Jochen Mass. A forma como o carro se desintegrou, com o corpo de Villeneuve sendo atirado para fora do carro ainda preso ao banco pelo cinto de segurança, gerou críticas. O 126 C2 era feito com estrutura formada em colmeias de alumínio e não em fibra de carbono, material mais leve e resistente que já vinha sendo usado, por exemplo, pela McLaren.

Carro de Villeneuve ficou destruído após acidente em Zolder, em 1982 — Foto: Getty Images

Carro de Villeneuve ficou destruído após acidente em Zolder, em 1982 — Foto: Getty Images

Mesmo com a potência do motor e a velocidade do carro, sobretudo em condições de classificação, a Ferrari continuou trabalhando muito na evolução do 126 C2. Com uma aerodinâmica revisada, e uma suspensão dianteira redesenhada, Didier Pironi emplacou uma sequência de bons resultados, com cinco pódios em seus corridas, e outra vitória, na Holanda. Ao contrário do carro da Renault, que era muito veloz, mas pouco resistente, o 126 C2 era mais confiável.

Patrick Tambay foi chamado para o lugar de Gilles Villeneuve, seu grande amigo, e também começou a pontuar com regularidade. Pironi e Tambay subiram juntos ao pódio em Brands Hatch, em segundo e terceiro, e ainda terminaram em terceiro e quarto em Paul Ricard. Numa época na qual os carros quebravam muito, a constância de resultados competitivos fazia a Ferrari liderar o campeonato de construtores, e Pironi, o de pilotos.

Didier Pironi dominou GP da Holanda de 1982, em Zandvoort — Foto: Getty Images

Didier Pironi dominou GP da Holanda de 1982, em Zandvoort — Foto: Getty Images

Mas aí veio outro duro golpe para a Ferrari. Já com a pole position garantida em Hockenheim por causa da chuva, Pironi entrou na pista para testar novos compostos da Goodyear para pista molhada. Só que, após ultrapassar a Williams de Derek Daly, o francês não viu a Renault de Alain Prost andando devagar pela pista devido ao spray, e a Ferrari decolou de forma semelhante à ocorrida com Villeneuve.

De uma forma também parecida, a parte frontal da Ferrari foi arrancada. Mas o banco de Pironi permaneceu preso ao monocoque, e as pernas do piloto foram duramente atingidas, com múltiplas fraturas. Didier sobreviveu, e suas pernas também foram salvas, mas ele nunca mais correu na Fórmula 1. Morreria cinco anos depois, num acidente de motonáutica.

Didier Pironi teve múltiplas fraturas nas pernas após acidente em Hockenheim, em 1982 — Foto: Getty Images

Didier Pironi teve múltiplas fraturas nas pernas após acidente em Hockenheim, em 1982 — Foto: Getty Images

Nelson Piquet foi o primeiro piloto a parar o carro para ajudar a socorrer Pironi. As câmeras de TV não pegaram o acidente, mas flagraram o francês sendo atendido e o brasileiro deixando o local visivelmente abalado com a cena. Depois, Piquet criticaria durante a construção dos carros da Ferrari, pelo fato de os chassis terem se desintegrado tanto no acidente de Villeneuve como no de Pironi.

Com Pironi fora de combate, Tambay levou a Ferrari a mais uma vitória no dia seguinte, depois que o líder Piquet abandonou após o famoso incidente com Eliseo Salazar, no qual deu uns sopapos no chileno. Numa atípica temporada com 11 vencedores diferentes, a Ferrari seguia líder entre os construtores, mas, a quatro provas do fim, dificilmente Pironi seguiria na liderança entre os pilotos, já que não tinha mais condições de correr.

Patrick Tambay conquistou sua primeira vitória no GP da Alemanha de 1982 — Foto: Getty Images

Patrick Tambay conquistou sua primeira vitória no GP da Alemanha de 1982 — Foto: Getty Images

Numa decisão equivocada, a Ferrari inscreveu apenas Tambay para os GPs da Áustria e Suíça, quando deveria contratar um substituto para Pironi. Era evidente que a equipe precisava tirar o máximo de pontos de Keke Rosberg (Williams), John Watson (McLaren), Niki Lauda (McLaren) e Alain Prost (Renault), os principais perseguidores do francês. Para piorar, Tambay teve um nervo pinçado nas costas e não conseguiu correr em Dijon - pista francesa que abrigou o GP da Suíça. E Rosberg, após vencer a prova, assumiu a ponta da tabela.

Apenas na penúltima corrida, em Monza, quando Pironi já tinha sido ultrapassado na classificação do campeonato, a Ferrari colocou o veterano Mario Andretti no carro que era de Pironi. Campeão de 1978, o ítalo-americano até agitou a torcida e fez a pole position mas terminou em terceiro, atrás de Tambay, o segundo. Num ano trágico para a equipe, nem mesmo foi possível vencer em Monza.

Mario Andretti voltou para a Ferrari em 1982 e fez sua última pole na F1 — Foto: Getty Images

Mario Andretti voltou para a Ferrari em 1982 e fez sua última pole na F1 — Foto: Getty Images

Mesmo com um carro rápido, regular e confiável, a Ferrari encerrou o ano de forma melancólica em Las Vegas, com um erro de Andretti na corrida e com mais uma desistência de Tambay antes da largada devido ao nervo. Apesar do revés duplo, a equipe italiana conquistou o título de construtores, cinco pontos à frente da McLaren.

No fim das contas, um carro considerado dos mais bonitos e eficientes da Ferrari acabou marcado pela tragédia. Até hoje, é um consenso de que o título de pilotos ficaria com Pironi ou Villeneuve. Mas o destino deles estava traçado.

Fonte:https://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/blogs/f1-memoria/post/2020/06/29/maquinas-eternas-29-ferrari-126-c2-era-veloz-mas-ficou-marcada-pela-tragedia.ghtml


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