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Setor de carne e laticínios já paga preço por mudança climática

O setor responde por entre 13% e 18% dos gases de efeito estufa emitidos por atividades humanas, mas empresas são pouco transparentes sobre as emissões



Gado: produtores de proteínas animais enfrentam reveses crescentes com secas, inundações e tempestades (Alfribeiro/Getty Images)

 

A indústria de carnes e lácteos sente cada vez mais o impacto das mudanças climáticas, mas mantém silêncio sobre sua própria responsabilidade na crise, segundo um novo relatório.

O setor responde por entre 13% e 18% dos gases de efeito estufa emitidos por atividades humanas. No entanto, mais de três quartos das empresas do setor divulgam muito pouco ou nada sobre as emissões de suas operações e cadeias de fornecimento, de acordo com um estudo divulgado na quarta-feira pela Farm Animal Investment Risk & Return, uma rede de investidores conhecida como Fairr e sediada em Londres.

Enquanto isso, os produtores de proteínas animais enfrentam reveses crescentes com secas, inundações e tempestades. O frigorífico Australian Agricultural informou, no começo do ano, que perdeu cerca de US$ 72 milhões e 43 mil cabeças de gado por conta de intempéries climáticas.

A Cal-Maine, produtora de ovos nos EUA, declarou que os custos com ração estão voláteis e podem subir mais devido ao impacto do volume recorde de chuvas e inundações sobre os preços internacionais dos grãos. A RCL Foods, processadora de aves da África do Sul, alertou que o lucro da empresa poderia ser afetado por restrições de irrigação devido à seca.

“A conscientização sobre a magnitude dos riscos ambientais e sociais desse setor aumentou apenas recentemente”, disse Maria Lettini, diretora da Fairr, em entrevista. O relatório analisou 60 empresas. O grupo, criado pela fundação do executivo de private equity Jeremy Coller, realiza pesquisas sobre o setor de alimentos para investidores que gerenciam cerca de US$ 16 trilhões em ativos.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alertou no início do mês que a queda na produção agrícola devido à mudança climática em algumas áreas já começa a colocar em risco a oferta global de alimentos.

O desmatamento associado à criação de gado no Brasil chamou a atenção internacional recentemente após um aumento expressivo nos focos de incêndio na Amazônia, mas nenhuma das 50 maiores empresas de carnes e laticínios possui uma política global abrangente destinada a impedir o desmatamento, segundo a Fairr. A maior parte do setor divulga muito poucos detalhes sobre as emissões associadas à criação de animais, de acordo com o relatório.

Petroleiras como Exxon Mobil e Chevron são muito mais transparentes sobre as emissões de gases de efeito estufa de seus negócios e registraram pontuação mais alta na divulgação de políticas ESG do que quase todas as empresas agrícolas, segundo dados compilados pela Bloomberg.

A Tyson Foods atualmente é a única processadora de carnes com meta de redução de emissões atrelada aos objetivos ambientais globais, em consonância com a meta do Acordo Climático de Paris de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius, disse a Fairr.

A tendência do consumo de carne à base de plantas pode ser uma prévia de algumas das mudanças à frente, porque a demanda por proteínas está aumentando globalmente, disse Lettini. Cerca de 25% das 60 empresas analisadas fizeram algum investimento em proteínas alternativas.

“Podemos tornar nossas operações de carne mais sustentáveis até certo ponto, mas, como a demanda por proteínas está crescendo, é preciso que haja algum tipo de compensação”, disse Lettini.

 

Fonte: Exame


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